quinta-feira, 20 de setembro de 2018

O Brasil tem o maior acervo de literatura de cordel disponível para pesquisa. Você sabia?



O Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural (IPHAN) aprovou ontem dia 19 de setembro, em decisão unânime, o gênero literário cordel como Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro. Isso significa, além de selar que o cordel é uma expressão linguística e cultural criada no Brasil, que o país deve subsidiar sua produção, divulgação e preservação de acervo. 

Para quem desconhece, cordel são aqueles livrinhos coloridos, pequenininhos e muitas vezes expostos em varais pelas feiras livres do interior do Brasil. São obras de baixo custo para produção, mas que tem uma grande importância para a cultura brasileira e especialmente nordestina. É uma produção tipicamente nordestina. Não deixemos de destacar isto: é do nordeste, é do Brasil!


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Nos cordéis é possível conhecer a cultura nordestina através de histórias que retratam a cultura, o folclore, o sertão, as lutas de Lampião ou o amor de Maria Bonita pelo cangaceiro mais famoso que já tivemos conhecimento. Atualmente, podemos encontrar sátiras políticas e até Elvis Presley em prosa sendo declamado pelos cordelistas, que além de viverem da venda desses materiais, declamam seus versos como forma de sustento. Podemos dizer que declamar versos cordelísticos é uma profissão para muitos artistas, ainda pouco ou nada conhecidos no país. 

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Uma boa notícia é que o maior acervo de cordéis, com mais de 18 mil títulos, encontra-se no Brasil, e sob tutela da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). No ano de 2004 a instituição criou a Biblioteca de Obras Raras Átila Almeida, para conservar e disponibilizar aos pesquisadores interessados além de livros e periódicos, uma diversidade de cordéis e de temáticas reunidas em um só local.

A aquisição do acervo foi feita pelo Governo do Estado da Paraíba no ano de 2003 e aos interessados, as visitas podem ser agendadas eletronicamente com pelo menos dois dias de antecedência da data da visita. Acesse aqui e consulte o acervo.

Algumas obras estão expostas no Museu de Artes Popular da Paraíba (MAPP), em Campina Grande (PB), que oferece oficinas de produção de cordéis para grupos interessados. 

A cultura nordestina declamada em verso e prosa, merecidamente, agora é Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro

Fica a dica!
Carol Cavalcanti

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Meu olhar feminino sobre Livro O Conto de Aia – Parte II

A autora, M. Atwood.
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O segundo destaque, o post-it laranja, é de um recorte da página 195 do livro de Atwood. O mesmo descreve com alguns detalhes às atribuições das Tias na "educação" das Aias. As tias não eram apenas responsáveis por ensinar bons modos, com ou sem o uso de violência e de tortura, mas também a inculcar na mente dessas mulheres a importância de servir ao projeto reprodutivo e repovoar a República de Gilead, que amargava um baixo índice de fertilidade e natalidade. 



Em parte do trecho podemos perceber a importância dada a essa repovoação:

Para as gerações que vierem depois, dizia Tia Lydia, será tão melhor. As mulheres viverão em harmonia, todas numa única família, vocês serão como filhas para elas, e quando o nível da população voltar a subir de acordo com as expectativas, não precisaremos transferir vocês de uma    casa para outra porque haverá mulheres suficientes.  

Entretanto, o preço dessa dedicação é o abuso sexual por diferentes homens. Homens velhos, que provavelmente não são mais férteis, mas como Comandantes, são os escolhidos como perfeitos espécies reprodutivos. Durante à leitura do livro, essa questão também vai sendo questionada.

Quando você espera por um olhar cuidadoso, uma preocupação com essas mulheres e seu papel social, a autora nos surpreende mais ainda: 

Poderão existir verdadeiros laços de afeto, dizia ela, piscando para nós de maneira insinuante, sob condições como essas. Mulheres unidas para um fim comum! Ajudar uma às outras em suas tarefas cotidianas enquanto percorrem o caminho da vida juntas, cada uma desempenhando sua tarefa determinada. Por que esperar que uma mulher desempenhe todas as funções necessárias à administração serena de um lar? Não é razoável nem humano. Suas filhas terão mais liberdade. 

A tal tia Lydia ensina também que ser uma boa aia consiste em cuidar uma da outra para que todas sirvam ao mesmo fim. E isso poderia lhes trazer benefícios futuros. Mas, o que se conta no restante do romance de Atwood é justamente ao contrário. Aias tem algumas chances para engravidar, caso isso não ocorra, deixam de ser mulheres "privilegiadas". São descartadas.

Até agora falamos sobre aias. Mas, todas as mulheres no livro tem um papel determinado. Mesmo as mulheres inférteis, velhas e doentes, tem um papel nessa comunidade. Serão elas as mães dos bebês gerados pelas aias, mesmo que não possam parir. Há uma institucionalização do uso do corpo feminino, retratado em várias situações no livro. Aias são reprodutoras, as tias, castradoras. E, ainda tem as esposas, as Martas, que são meras empregadas e assim por diante. As mulheres no Conto de Aia de Atwood são rotuladas e exploradas, todas, de uma forma ou de outra.

O livro foi lançado em 1985 e Atwood sofreu boicote e muitas críticas das feministas. Atwood estava sendo machista ou realista? Trinta e três anos depois, Atwood deveria ser criticada ou aplaudida? Somos mais ou menos exploradas, agredidas e violentadas em pleno ano de 2018? Estamos falando de um livro, de um romance, de uma ficção. Mas, se este nos incomoda, nos dói, é porque de realidade tem de sobra. Não é?

O parágrafo termina assim:

Estamos trabalhando para atingir a meta de um pequeno jardim para cada uma, cada uma de vocês - as mãos unidas com os dedos cruzados de novo, a voz suspirante - , e essa é apenas uma, por exemplo. O dedo levantado, balançando para nós. Mas não podemos ser porcos esganados e exigir demais antes que seja pronto, não é mesmo?

E nós mulheres, como terminamos? Como vivemos hoje em pleno século XXI em nossa República de Gilead chamada Terra?

Carolina Cavalcanti Bezerra
Namorinho de Sofá

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Meu olhar feminino sobre Livro O Conto de Aia – Parte I

Capa da primeira edição de 1985

Bom, primeiro preciso contar um pouco da história deste livro em minha vida, de como ele chegou em minhas mãos. Foi numa sexta-feira à tarde, em Recife, um dia meio chuvoso em que resolvemos, eu, meu pai a quem não via fazia 10 anos e minha prima, que só conhecia por redes sociais, ir dar uma volta no shopping da cidade. A prima, leitora ávida, disse-nos esfuziante que nos levaria às livrarias. Meu pai, leitor ávido, não se opôs. Eu também não, leitora, menos ávida do que gostaria. Andamos, percorremos todos os corredores da livraria. Passei pelos livros em exposição na entrada da loja, caminhei pelas fileiras divididas por temáticas e fui dar uma volta no espaço dedicado à Filosofia. Eu queria comprar tudo, mas não me interessei por nada em especial naquele momento. Decidimos tomar um café. Meu pai com uns dois livros embaixo do braço e minha nova prima? ela tinha um bocado de livros nas mãos. Ao irmos embora, meu pai perguntou se eu conhecia a história do livro e respondi que havia ouvido falar, mais pela série de televisão e sua temática, do que pela autora ou algo mais. “Vou comprar para você”. Ao ouvir suas palavras, confesso que fiquei meio confusa, porque não queria ler o livro, tenho evitado certos assuntos pesados em minha vida, especialmente os que envolvem a violência infringida às mulheres. Por outro lado, fiquei feliz, depois de 10 anos, meu pai me dedicou um livro: “Para Carol, com carinho, sem terror. Beijos do pai. 29/06/2018. Recife”.

Comecei a ler o livro na noite do dia 30 ao voltar para casa após ter me despedido de meu pai e de uma parte de minha família que não conhecia.

O livro em sua contracapa destaca algumas recomendações: “O conto de aia é ao mesmo tempo um exercício insuperável em ficção científica e uma história moral de significado profundo” ou “O arrepiante romance de Atwood tornou-se mais vital do que nunca”, ou ainda “Ilumina brilhantemente algumas das mais obscuras ligações entre política e sexo” e por fim, “Poderoso, admirável”. Eu diria: atual e constrangedor. E por que escolho estas palavras? Porque dentre tantas, estas remetem mais ao nosso mundo, ao nosso cotidiano e nossas fragilidades.

Mas, vamos ao livro. A história se passa na República de Gilead (século XX e XXI) onde uma nova ordem social prevalece. Algo como castas são criadas e as mulheres são usadas, dentre outras coisas, para reprodução. Todas as banalidades, futilidades e frivolidades são banidas e a partir de então ou você é saudável para procriar ou será relegada a outras funções que satisfaçam os Comandantes (ou achavam que seria diferente?).

Um novo mundo estéril, mortes e deformações surgidas devido ao vazamento de lixo nuclear e doenças sexualmente transmissíveis. Este é o cenário apocalíptico da escritora canadense Margaret Atwood.

As mulheres que são escolhidas para serem reprodutoras (não como barrigas de aluguel ou para fertilização em laboratório, são violadas por quantos Comandantes sejam necessários até que engravidem), são chamadas de Aias e se vestem de vermelho. Usam uma espécie de chapéu branco que as impede de ter uma boa visão sobre tudo e todos. Na primeira parte do livro, a autora descreve e detalha as divisões em castas, as roupas que cada um usa e as funções a serem exercidas, o que nos traz, na leitura, uma sensação de opressão e de agonia.

A mulher é o foco do romance. E independente da casta a qual está submetida, é uma mulher submissa. Oprimida.

Durante a leitura do livro eu grudei aqueles papeis coloridos em algumas passagens. Na verdade destaquei sete passagens e pretendo relê-las e escrever sobre o que senti nesses e em outros momentos do livro. O primeiro destaque dado na narrativa foi com um post-it rosa, na página 36, capítulo cinco intitulado Compras:

Agora andamos pela mesma rua, aos pares de vermelho, e homem nenhum grita obscenidades para nós, fala conosco, toca em nós. Ninguém assobia.

Atwood nos mostra o lado bom do novo mundo onde as mulheres são respeitadas. Ser uma Aia, que de tamanho valor tem, é ser reverenciada por onde passa. Mas, tal reverência ocorre apenas porque seu ventre é fértil. Você não é mais um pedaço de carne, não como antes. Sem assobios. Foi assim que me chegou essa primeira leitura e um questionamento: mas, a que preço?

O segundo post-it, que é laranja só para matar a curiosidade de vocês, será o mote para a próxima reflexão, em breve. Após sentir mais as palavras, dormir, sonhar ou não, acordar e sentir novamente como a leitura mexeu comigo. Preciso digerir o que acabei de ler hoje, dia 11/07/2018.

Desculpem a simplicidade nas palavras e no relato geral da trama, mas a intenção é ser breve e ao mesmo tempo deixar um fio de curiosidade para prováveis futuras leitoras. Sim, estou falando com as mulheres. Leiam o livro antes de ver a série The Handmaid’s Tale. Se possível, nem vejam a série, o livro basta.

Carolina Cavalcanti Bezerra
Namorinho de Sofá