terça-feira, 15 de outubro de 2019

O que as novas séries da Netflix tem a nos ensinar?

Algumas estreias de séries na Netflix chamam à atenção, não somente pela diversidade de temas, mas também pela profundidade de suas discussões e atualidade dos fatos.

A primeira série que gostaria de comentar é O Código Bill Gates. São três episódios, apenas, que tratam do lado filantropo do multimilionário, ex-presidente da Microsoft. Confesso que não conhecia nada sobre suas ações humanitárias, bem como sobre os projetos da Fundação Bill e Melinda Gates. Ao terminarmos à série, onde podemos ver um nerd extremamente metódico, focado e decidido buscando resolver causas para nós impossíveis, sentimos que falta algo dentro de nós. Nos falta humanidade e preocupação com às coisas mais simples do mundo, como um vaso sanitário e saneamento para todos. Claro, claro! Eles têm dinheiro de sobra e nós não. Mas, preferi não contemplar por esse lado. Uma diversão, um aprendizado.


Outra série interessante, O Desaparecimento de Madeleine McCann, revela como foram às investigações do caso de desaparecimento de Madeleine, que de férias no Algarve, em Portugal, desaparece de seu quarto enquanto seus pais divertem-se no bar do hotel. Ambos os lados são expostos de forma minuciosa, naquele estilo investigativo que só americanos ou ingleses sabem fazer. O papel e os erros da polícia potuguesa que culpa os pais mesmo sem um corpo e o lado dos McCanns, que descobrem por conta própria uma rede de pedofilia internacional e acreditam que sua filha foi sequestrada. São oito epsódios que vão deixando dúvida em quem assiste, ora cremos na culpa dos pais ora na conspiração e sequestro. Lá se vão 12 anos de mistério. Vale a pena assistir, mesmo depois de ficar claro a posição tomada pela direção/roteirização dessa série documental. Ao final, a primeira coisa que pensei foi em ligar para as minhas irmãs que têm filhos pequenos. Aprendemos muitas coisas com essa produção, como o escandaloso caso de pedofilia (Casa Pia) em Portugal envolvendo políticos e a organização dessa máfia que sequestra crianças, de ambos os sexos,  para algo tão asqueroso.


The Family: a democracia ameaçada, curiosamente neste momento que os EUA vivem uma crise constitucional, com um pedido de impeachment contra o Presidente Donald Trump, revela uma grande organização norte-americana com ramificações por todo o mundo, que em nome de Jesus Cristo, reúne as grandes mentes (brancas, masculinas e podres de rica) para guiar às políticas locais e globais. Só que não!

Baseado em dois livros lançados por Jeff Sharlet, que ainda jovem é convidado a viver em uma comunidade que escolhe a dedo seus membros e que é composta só por homens (H) que estão sendo moldados para serem o "futuro" do mundo, descortina, segundo o autor, a verdadeira intenção dos líderes da "organização". A narrativa é bem interessante e mostra a influência que o grupo tem no cenário político norte-americano. Sem deixar passar nenhum presidente (dos Bushs, Clinton, Obama e Trump, só para falar dos mais recentes em nossa mente), A Família lembra muito, em sua estrutrutura, com organizações como a Klu Klux Klan ou mesmo a Opus Dei.  Muito instrutivo.

Bom, após falar sobre as três séries de forma breve, vou expor o ponto de vista que EU escolhi. O das mulheres. Na primeira série temos uma mulher ao lado de um homem, que ao final agradece sua positiva existência no mundo a ela, à Melinda Gates. Uma mulher forte. Na segunda, temos duas mulheres. Madeleine desaparecida e sua mãe, Kate, agredida e execrada pela mídia e por parte da população mundial que a declarou culpada pela morte ou sumiço da pequena criança, pois que mãe deixaria seus filhos sozinhos para tomar umas biritas com amigos? Por fim, a ausência completa das mulheres na não-organização A Família. Ou melhor, além da ausência e da não importância, à submissão das mesmas, que se reflete na sociedade de todo o mundo, como podemos notar em falas e ações retrógradas e na perda de direitos conquistados com muita luta que vem sendo apoiada inclusive por algumas....mulheres!!!

Por fim, lembram de "Brasil acima de tudo. Deus acima de todos"? Depois de assistir aos cinco episódios da série The Family fica fácil entender porque o mundo está tão conservador, com o domínio dos cargos públicos por homens que seguem Jesus Cristo em primeiro lugar (essa é uma desculpa deles, ok!) enquanto Hasselmanns servem a esses homens de forma repulsiva. Todas essas questões que acontecem aqui no Brasil são facilmente identificadas e podem ser correlacionadas com à série. E vice-versa.

É claramente evidente que são tempos mesmo de trevas! Parece impossível reagir. Prestem atenção ao caso da Romênia tratado na série A Família (vale a pena lutar por seus direitos!) e façam a relação que é possível sobre a recente não entrada do Brasil na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico - OCDE. Mas, para fazer isso, é preciso colocar Jesus Cristo no seu lugar de destaque...longe do Estado.

Boa leitura, boa diversão e mais do que tudo, bom aprendizado!

Carol Cavalcanti

domingo, 15 de setembro de 2019

Chernoyl, da HBO: uma série para ser assistida

Recentemente assisti à série Chernobyl, da HBO. Fiquei receosa, inicialmente, por se tratar de uma coprodução anglo americana, que talvez visasse "falar mal" da antiga União Soviética. Mas, rapidamente fui gostando da fidedignidade artística na composição das imagens, dos personagem e da caracterização do figurino e do cenário. Só por isso já vale muito assistir aos cinco episódios da primeira temporada, que não precisa nem ter continuidade, pois encerrada do jeito que foi, está de bom tamanho. Uma segunda temporada, talvez, perca seu viés histórico, abrindo para a criação de novos roteiros provocativos e melodramáticos. 

Sobre o enredo:
A série tem dois eixos distintos, sendo um deles, o resgate da população e a eliminação de todos os animais e outro que reconstitui à tragédia tendo como linha de tempo 12 horas antecedentes à explosão do reator, até o julgamento dos "culpados" pela tragédia.





Não darei nenhum spoiler porque acho que a produção que recentemente foi indicada a 19 prêmios Emmy (premiação para produções realizadas para à TV) deve ser assistida. Os guerreiros da vida real são os mineiros que ajudaram a estabilizar o local, os jovens que foram recrutados pelo exército para eliminar tudo que continha radioatividade e os mais de três mil homens que comprometeram sua saúde para isolar o reator. Para "servir à URSS" homens e mulheres se sacrificaram. 



Há na série, a personagem fictícia da física Ulana Khomyuk criada pela produção para representar os cientistas que dedicaram seus estudos para descobrir às causas e erros cometidos, solucionar e amenizar às consequências da radiação.




Ao final, imagens de arquivo são utilizados pelo diretor Johan Renck. Ficamos estarrecidos com o poder de destruição causado pela explosão do reator 4, em abril de 1986. Algumas imagens de arquivo comprovam o quanto os russos lutaram para que a catástrofe não fosse maior, mesmo tendo cometido uma série de erros, que até hoje trazem consequências à saúde de milhões de pessoas. Não sabemos ao certo quantas pessoas morreram direta e indiretamente com a catástrofe de Chernobyl e quantas ainda apresentam em seu DNA contaminação. O que sabemos é que a região continua isolada, com áreas vigiadas e com entrada proibida. Mesmo assim, alguns moradores vivem em cidades fantasmas dentro do raio estabelecido de 200 km da desocupação total.

Lá se vão 33 anos, centenas, provavelmente milhares de  mortos e doentes. Para Chernobyl, em 2019, restou o turismo catástrofe de visitantes que se arriscam para estar mais perto da morte - só pode - ou que não tem nada de interessante para fazer - eu acho.

Não deixem de assistir.
Fica a dica!

Carol Cavalcanti.

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

O cinema nacional nas nuvens: entre festivais e o sucesso de crítica internacional

O ano de 2019 tem uma safra interessante de filmes. "Pacarrete" acaba de ser o grande vencedor do 47º Festival de Cinema de Gramado, recebendo oito kikitos (melhor filme, direção, atriz, roteiro, atriz coadjuvante, ator coadjuvante, desenho de som e filme pelo júri popular). "Bacurau", com a atriz Sônia Braga, vem agradando em festivais internacionais e já recebeu o Prêmio do Júri no Festival de Cannes, no qual também foi indicado à Palma de Ouro (sua maior premiação) e o de Melhor Filme nos festivais de Munique e Lima. E o não menos interessante, "A Vida Invisível", do diretor Karim Aïnouz, vencedor do Prêmio Um Certo Olhar, também no Festival de Cannes, acaba de ser escolhido para representar o Brasil na lista de indicados ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.


O enredo escolhido para representar o Oscar conta a história de duas irmãs separadas nos anos de 1950 e que tentam sobreviver à sociedade machista e paternalista da época. Fernanda Montenegro faz uma participação especial e já antecipando, creio que o filme venceu por causa da sua representatividade no cinema internacional. Não esqueçamos que F.M. foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz por "Central do Brasil" em 1999. Mas, isso não quer dizer que o filme não mereça estar onde está. 

"Bacurau", produção que corria por fora pela indicação, também tem uma atriz
muito conhecida internacionalmente, Sônia Braga, natural de Maringá - PR (isso eu não sabia!) e naturalizada estadunidense (novidade para mim!). A atriz fez alguns filmes pela terra do Tio Sam, assim como participou de seriados de TV por lá (Sex and the City, CSI: Miami, Law & Order) e aos 36 anos apresentou o Oscar junto com o ator Michael Douglas. O filme perdeu por dois votos.
Bom...seu enredo é ambientado no meio do sertão nordestino e conta a história de uma comunidade que descobre que está desaparecendo do mapa. Um "faroeste caboclo", típico da produção nacional.


"Pacarrete" conta a história de uma senhora moradora de Russas, pequena cidade do Ceará, que tem como sonho apresentar uma peça de balé no meio da maior festa da cidade. Trocar o balé pelo forró, imaginem só! O filme é baseado na história de uma pessoa real que viveu 92 anos no interior cearense e era conhecida como uma mulher excêntrica que se vestia diferente e sonhava com o ensino de dança na cidade. Muitas a viam como uma moradora de rua que não dizia nada com nada, uma deslocada na cidade. Seu "nome" tem origem na palavra francesa "pâquerette" (margarida), mas na vida real era associado à loucura. Na cidade a expressão "deixa de ser pacarrete" descrevia uma pessoa que fazia loucuras, que aprontava, que era diferente.

Temos aqui, três grandes produções nacionais (o filme com Sônia Braga é co-produzido pela França). Com certeza excelentes filmes, excelentes roteiros e atuações. Mas, será que teremos, todos, acesso às obras? Em todo o Brasil? Vários motivos podem ser destacados sobre a questão, mas em especial o fato de que para concorrer ao Oscar, um dos critérios é o filme ter sido visto por um público considerável. "A Vida Invisível", que está no páreo, tem previsão de lançamento para 31 de outubro de 2019. A conta não fecha, pois dificilmente temos boas bilheterias para filmes nacionais que são independentes das emissoras de TV e muito menos salas disponíveis ao cinema de qualidade. A premiação do Oscar está marcada para 9 de fevereiro de 2020 e normalmente um mês antes os indicados são divulgados. Ou seja, serão apenas dois meses nos cinemas (!!!). Bem, mas como digo pelas redes sociais da vida "o Oscar não deve ser parâmetro de premiação", pois além de ser muito comercial, privilegia suas produções. 

- Sim, sim, eu sei. Isso vem mudando nos últimos anos. 

Vale destacar que nenhum dos filmes estreou nacionalmente. "Bacurau" tem previsão de estreia nacional amanhã. Será que vai passar aqui em Campina Grande??? "Pacarrete" não tem previsão de lançamento no Brasil, mas já foi lançado em alguns festivais internacionais. Mas, neste, temos mais fé, já que a atriz vencedora do kikito de melhor atriz, Marcelia Cartaxo, é "cajazeirense da gema" e adorada pelos paraibanos por sua versatilidade. Quem não lembra da atriz em 1985, com a sua Macabéa em "A Hora da Estrela" ou em "Madame Satã", de 2002. Sensacional!

Em nome de Namorinho de Sofá, desejamos que todos os filmes possam ter a oportunidade de serem vistos em todos os cinemas, inclusive nos de Campina Grande. "Pela sua atenção, obrigada!".

Carol Cavalcanti